Crônicas

Era só uma bicicleta

Era só uma bicicleta!

E Cláudio Rafael não havia roubado nada! Apenas saiu com a bicicleta de sua irmã!

Ainda que tivesse acontecido um roubo, nada justifica a cena de selvageria que ocorreu em Copacabana.

Pior, a cena de espancamento e linchamento de Cláudio Rafael escancara o quão estamos doentes! Que sociedade é essa que mata?

Que sociedade é esta que banaliza a morte?

Na fúria do dia a dia, vamos perdendo um pouco de nós mesmos.

Na fúria do dia a dia, vamos nos afastando daquilo a que ainda chamamos humanidade!

Na fúria do dia a dia, banalizamos a própria vida…

A sociedade do espetáculo entrega a todo momento cenas grotescas de descomposturas gratuitas, violência verbal, agressão física, feminicídio… um sem-fim de comportamentos gravados e visualizados por milhões.

Um dos agressores de Cláudio fez questão de filmar a horrenda ação, como se fosse paladino da justiça resolvendo as misérias históricas do país.

Era só uma bicicleta!

E uma vida foi tirada pela ignorância, pela barbárie, pela total falta de noção!

Cláudio Rafael saiu com a bicicleta da irmã. Sentiria o vento na orla da praia? Não se sabe… Olharia para as ruas e cenários aos quais estava acostumado e seguiria para um encontro, uma conversa?

Não se sabe… Olharia para as singularidades de Copacabana mais uma vez e teria um bom pensamento? Não se sabe…

O que se sabe é que a brutalidade, mais uma vez, prevaleceu sobre o bom senso.

A bicicleta?

O Objeto da discussão e da morte de um inocente ficou jogada na calçada, alheia à fúria dos homens…

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Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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